Sou mar. Que tantas vezes se afogou engolido pela própria ressaca.

E esse sal que me invade junto à água, esse sal que queima. Queima cada canto de minhas entranhas.

Já me queimei, me afoguei, me perdi. Dentro de mim.

Quando eu era menina, fui rio. De água doce e límpida. De correnteza leve. Até que o vento deixou de ser brisa e me levou. Quando não queria mais ir, me arrastou. Quando dei por mim, colidia em meio a imensidão de um oceano. Que me tragou. Consumiu.

Eu não escolhi ser mar. Só eu sei a dor desse naufrágio. Mas não saberia mais ser outra coisa, além de água que se inunda e autodevora. Numa antropofagia desenfreada, incompreendida por olhos que não são os meus.

Difícil entender como no desassossego dessa imersão pude encontrar a calmaria do oceano.

Mas encontrei. Me achei, apesar da eterna sensação de que sempre haverá muito mais a desbravar. Sempre me levarei pelo desconhecido, mas sem sofrer pela ânsia de velejar perdida, em meio a tantos nadas, querendo chegar a lugar algum.

Entendi que não há porto seguro em que me agarre, não há o destino final de uma viagem. Só há a leveza dessas águas, que hoje sei como contemplar em mim. Levando, levando… sob o manso barulho da maré.

Quando eu partir, digam fui mar. Fui mar. Que aprendeu a navegar em si.

Cláudia Fonseca | 26/09/2016

tenho fome de vida
sou corpo, alma, matéria, suor, lágrimas, sorrisos
sou pura, sou pecado, posso ser quantas mulheres eu quiser

devassa, insana, louca, santa
virgem, vagabunda, recatada, piranha

posso espremer muitas horas
e viver uma vida inteira em um minuto só
como posso amargurar dias e dias
na angustiosa sensação de um existir vazio

quero chorar tudo uma única vez
desejar morrer por alguns segundos
mas acordar no dia seguinte sedenta pelo calor do sol
mesmo mergulhada em um buraco que eu sozinha cavei

porque sou fonte de luz e me redimo de todos os meus pecados
mas apenas amanhã
hoje, sou o que eu quero, preciso ser tudo o que eu puder

posso tomar todas as drogas
posso dançar até meus pés implorarem que eu pare
posso amar como louca horas seguidas
e amanhã nem mais lembrar

sou tudo, sou o mundo
dentro do meu universo eu sou o infinito
repleto de buracos negros que sugam tudo para sua imensidão de nada

meu amor não cabe em mim
meu desejo consome as forças que não tenho
definha nas vontades que tantas vezes não sinto
e nessa loucura posso ser freira ou prostituta

sou apenas uma mulher

meu corpo arde em chamas
meu coração queima como o gelo
minha alma se perde de mim quando menos percebo

sou água, sou vento, sou terra
sou fogo, sou pedra, sou luz
sou tudo o que eu poderia ser mas esse tudo sempre foi muito pouco para mim

sou dor, sou dádiva, sou vida
sou resultado do mais incongruente amor que me habita e me possui

eu berro, eu rio, eu brigo
ensino, aprendo, eu vivo
negando esse medo das possibilidades de um “não” e a infinidade de todos os “sim”

eu quero o sim, eu quero tudo
ou posso não querer nada
e sofrer por continuar desejando mesmo nessa ausência de querer…

sou a entrada, sou a porta
nem sempre aberta
apesar de o rio não parar de correr

quem me tem, que me ame,
e perca a sanidade por mim
mas se hoje me deito em tua cama
amanhã acordo, levanto
e parto, eu abandono

não posso me perder ainda mais de mim

corro e não volto
mas posso mudar de ideia
se hoje vou em frente
amanhã, quem sabe, eu olhe para trás

desconheço o meu querer

até onde você me quiser,
até onde eu quiser
posso ser só tua
mas nunca sou de ninguém

sou minha, sou só minha
sou eu
que quero, que vivo, que amo

sofrendo, como se fosse a primeira e a última vez
ou sofrendo com a insossa falta do sofrer

mas isso é hoje,
apenas hoje
amanhã… amanhã será outro dia

Cláudia Fonseca

08/12/2008 – 19/02/2014

Dos amores que não tive, dos beijos que não dei, digo apenas que existiram. Idealizados, todos, nas recordações que com frequência se apropriam de meus pensamentos. Desses amores que tive – tantas as vezes eu os senti, tantas vezes eu os sonhei – guardo abraços que me fizeram esquecer uma arrastada e pesada existência, beijos que me devoraram a alma e impuseram leveza insustentável para minha essência. Amo com toda força porque sei que em breve vou acordar e colocar de novo e mais uma vez os pés na terra que me aprisiona e não consigo abandonar. Não suporto a ideia de ficar tanto tempo perdida de mim. Mesmo não sendo o chão o meu lugar.

Quantas dores precisei inventar só para poder mandar meus amores embora sem culpa, voltar para uma realidade tão falsa, por ser concreta, quando toda minha existência é impalpável. Uma realidade onde a solidão consola mais do que afronta, que me permite ser todas essas pessoas que preciso ser, mas não me deixa amar das mil maneiras que eu poderia e precisaria para viver.

Talvez eu apenas possa amar em plenitude enquanto durmo e em sonhos encontro pedaços de mim mesma distribuídos em outros corpos, já que meu inteiro, tão contraditório, não pode ser encontrado em lugar algum além de mim. Sou tantas e tantas num único que se transforma em algo que jamais poderia ser amado de uma vez só, não sei viver de um pouco amor que jamais me bastaria. Prefiro ficar sozinha, à depender de migalhas de sentimentos.

Então me entrego e quase me encontro nos vários hálitos que tocam com calor o meu sexo, invadem sem remorso a minha boca, sob o manto da imaginação. E me largo a ponto de esquecer o quanto me esqueço e não me conheço, mas me reconheço nos fragmentos dessas paixões que invento para mim. Todos os que amo carregam o fardo de experimentar ser um pouco do todo desconexo que sou. Todos tão diferentes um dos outros, todos tão parecidos comigo.

E amo. Amo com muita ternura e cuidado cada um dos amores que não tive, cada um dos amores que inventei, cada um dos amores que fugiram de mim, cada um dos amores que deixei. Amo pelo (des)prazer de ser invadida por algo que não faz parte de mim, só para poder escrever sobre o que não sinto, só para viver o que não existe além de meus devaneios.

Amo porque preciso de um amor covarde que me escape, de um amor livre que me abandone, de um amor estúpido que me desequilibre, de um amor tranquilo que me console. Amo porque não sei viver sem amar mas, por não amar nunca, crio amores que sempre e todos os dias não se cansam de me deixar. E é em minha própria solidão que me apego, e me apaixono, cada vez mais, mais e mais… E quando perguntarem, mesmo sozinha jurarei, com todas as forças: nunca tive medo (nem comedimento) de amar.

Cláudia Fonseca

18/02/2014

Quero falar sobre a chuva, que durante a madrugada regou as ruas dessa cidade de concreto. Sempre que estou triste, chove. É como se o céu chorasse por mim as lágrimas que não derramo. E eu, que amo tanto sentir a chuva, nunca me molho. Eu só ouço, só olho.

(…)

Nunca senti tanta necessidade de mergulhar no mar como nessa manhã. Só para poder sentir, nem que fosse por um único momento, essa sensação de liberdade que não é minha, que não tenho. Mas o mar percebeu o que eu queria e colocou suas águas de ressaca. E me fez entender que eu não estava pronta para me desprender de mim desse jeito. “Você não suporta sua liberdade”, ele falou.

Eu não mergulhei.

(…)

Subi as pedras e fiquei olhando o sol nascer. E todo o desassossego em mim foi se diluindo com o sopro do vento salgado… foi se dissolvendo. Pena o azul do céu não ter vindo me cumprimentar e dizer: “Oi, tudo bem? Você por aqui? Escuta, tudo bem você não ter entrado no mar. Estar por aqui já é um começo”. Só que ele não veio. Mas mesmo escondido sob as nuvens, me presenteou com uma das paisagens mais lindas que meus olhos já viram. Era exatamente o que eles precisavam ver e meu corpo sentir. Céu e mar brancos. Os dois se amavam, gozavam sob meu consentimento. Eles eram um só.

Concepção

Pensei em chorar, mas por quê? O que seria o pouco sal que brotaria de meus olhos comparado ao infinito sal que meus olhos contemplavam naquele momento? Fechei as pálpebras secas e respirei fundo a maresia, enquanto sentia a vida entrar em mim. E abri os olhos para ver a vida… nascer de mim.

(…)

Eu queria ser uma daquelas gaivotas que dançavam no céu opaco e esfarelado. E escolhia sempre uma para acompanhar com o olhar, enquanto imaginava como seria estar ali… e voar. Como consolo, o vento embalou com carinho meu coração e sussurrou em meu ouvido que eu aprendesse a aceitar esse corpo que limita minha alma. “Mas não deixe que seus pensamentos e sonhos se limitem”. Mesmo falando baixinho eu escutei, apesar de toda a limitação que há em mim.

(…)

Como podia a felicidade estar ali tão perto, todo esse tempo, sorrindo? Ela estava ali e eu não podia chorar em sua presença. Eu não tinha esse direito. Mas eu quero, eu preciso de alguma forma, escoar a vida presa dentro de mim. Só que não sei se meus olhos suportariam a enxurrada. Nem sei se essas águas aliviaram o peso no meu coração.

Quando tive que ir embora dali, quase chorei.

Eu deveria ter chorado.

 Eu não queria abandonar o consolo que encontrei para minha alma. Estou tão presa em mim mesma que já me abandonei demais.

(…)

Eu acordaria ali todos os dias de minha vida. Mas esse mundo em que vivo, que não é o meu, não me deixaria fazer isso. Existe algum lugar para mim? Um lugar além de mim, justo eu, que nunca me encontro. Não deixo de me perguntar se eu suportaria lidar com a liberdade desse meu não lugar.

Eu fui embora.

Voltei, mas ainda não sei se eu estava pronta para voltar.

(…)

Descoberta

Enquanto eu caminhava pelas ruas, já sentia o coração que novamente doía. Mas se não fosse essa dor, aquele nascer do sol não teria redimido minha alma. Devo me perdoar pelos erros que acredito ter cometido? Fui dormir triste. Quando acordei, chovia novamente.

Ainda chove… em mim.

Cláudia Fonseca

24/03/2012

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Sonho com um dormir feito de renunciar dos sentidos, um mergulho no profundo abandono, enquanto sofro esse sono repleto de despertar de medos, mesmo os que desconheço. Emergem desses lugares obscuros que (me) escondo e assombram minha noite, como incógnitas que não desvendo nem dormindo, nem acordada. Meu afogar quando fecho os olhos me leva ao mar.

A maré revoltada forma ondas que podem engolir meu corpo, estraçalhar minha carne em sua cólera. Eu desapareceria para sempre, dividida em pedaços que fazem de mim e da imensidão do mar uma só matéria. Devorada, minha existência extinta só pode ser evitada pelo medo. Fujo para as águas não me alcançarem.

A praia está agora cercada por uma muralha de areia que impede minha partida. E antes mesmo da revolta do líquido, antevejo o presente sombrio. A barreira está lá, como a materialização do pior iminente, a premonição de um mar rebelado, a prova de que minha covardia deve ser combatida. As águas vão me possuir. E eu corro na esperança de achar uma brecha no muro que dê passagem para outro lado, longe do mar. Invento um mundo onde a confusão que se dá em mim se torna a redenção de minha vergonha: caí no desespero ao ser impedida por uma barreira formada apenas de areia.

Já não há mais muros. Abandonada de pé sobre um filete de areia no meio do mar, acuada pelas ondas que vêm dos dois lados, sinto a maresia invadir meu corpo nu. E tremo. A extensão alcançada por meus olhos não aponta nada além da água. E a fina camada de areia que forma uma trilha sem fim. Corro novamente. Mas se não tenho para onde ir, por que corro tanto? Às vezes canso e paro hipnotizada pelo mar de ressaca. Sua fúria me apavora.

Mas não é o medo que me faz sofrer. Dói quando as águas desaparecem transformadas em uma vala que mal cobre meus joelhos. Pulo, tento mergulhar, tento desesperadamente afundar na esperança de umedecer ao menos os cabelos. Quanto mais tento imergir, mais a seca me afronta e destrói minhas esperanças. Sequer consigo molhar o corpo, desmorono no arrependimento de não ter me afogado enquanto podia.

Algumas vezes estou em meio ao mar quando ele se revolta e me domina. Um sonhar mais intenso do que qualquer sensação desperta. A água bate com violência, me carrega inerte de um lado para o outro, não tenho controle de meus movimentos, meus sentidos. Um abandonar que faz sumir o peso da existência. É como flutuar, não estou mais ali, não estou em lugar algum. Ou estou em todos os lugares ao mesmo tempo.

Sonho com o deleite de me perder em meio as águas. Nesse momento de entrega em que meu corpo não é mais meu, minha nudez não é só de pele. É também de alma. O líquido salgado invade cada pedaço de minha carne, sem pressa, sem pedir licença. Nunca me senti tão viva. E tão distante do despertar para uma realidade que me confunde e apavora mais do que qualquer pesadelo.

Mas esse último sonho é muito raro.
Porque tenho medo do (a)mar.

Claudia Fonseca
04;02;2014

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Há um universo inteiro que se movimenta em mim, repleto de realidades paralelas e falsos paralelismos que se entrelaçam e se repelem, como em uma eterna dança de amor e destruição de um nada que existe com mais força do que qualquer outra coisa viva. Lugares obscuros e inconstantes onde apenas eu posso transitar.

Meu universo é uma estrada sem fim que percorro sem medo, mas um tanto assustada. Uma estrada sem limites, sem margens, sem indicação, sem direção. Um pairar no vácuo que ouso chamar de caminho. Um trajeto sem pegadas, talvez nunca percorrido. Tantos são esses não lugares que nem mesmo eu os conheço, e me perco. Um eterno levitar na inconsistência do nada.

Há infinitas estrelas que queimam e cometas que rasgam o vácuo. Há planetas mortos que um dia transbordaram vida. E um buraco negro sempre atraindo constelações inteiras, sugando tudo para o caos de suas trevas, repletas de partículas negativas que se chocam e tudo destroem, em lampejos capazes de cegar a própria alma. Luzes submersas na mais profunda escuridão. Mas se meu universo é realmente infinito, por mais que seja consumido, sempre haverá fogo ardendo em algum lugar.

Sou agora uma atmosfera azul turquesa límpida e calma, sem oscilações, formada apenas por astros que brilham até o fim desse horizonte sem fim. Sou todo um céu cheio de vida, pairando sobre algum planeta distante, à espera do nascer do sol, do pôr do sol, do crepúsculo, experimentando todas as cores que essa mistura do cosmos pode me dar.

Sou um infinito que não cabe em mim. Sou uma luz que transcende o espaço e o tempo, e por isso mesmo, se perde em (de) mim mesma. Nesse universo onde ninguém mais pode transitar, não há salvação que extrapole a inconstância do caos interno que me acalma.

03/01/2014

Cláudia Fonseca

Nem sequer mais te vejo, mas quando chega a noite passo horas rindo e conversando com você nos meus sonhos mais tranquilos, ou nos mais esquisitos, que desisto de encontrar explicação. E não sei se são assuntos pueris ou uma daquelas nossas conversas complexas sobre a condição humana, mas lembro de brincadeiras, gargalhadas, uma cumplicidade que nunca tivemos quando acordados, quando nos víamos nessa realidade formada por pele, por carne e osso, nós dois, tão palpáveis como essa existência nos obriga a ser.

Ainda custo a entender o porquê de você me esperar dormir para me procurar. E me encontrar sem dizer um olá, te ver partir sem ouvir um tchau, nessa falta de sequência definida típica dos sonhos, mesmo os mais próximos que conseguimos ter dessa realidade crua, vivida de olhos abertos. Você simplesmente invade minhas noites, aparece na casa que nunca foi quando acordado, e conhece pessoas próximas de mim que sequer alguma vez viu, tudo isso você faz, mas apenas enquanto durmo. E deixa aquela sensação de nuvem que evapora, inconsistente, como se nunca tivesse passado ali, mesmo tendo ficado algum tempo, trazendo quem sabe as chuvas, ou tapando o sol, ou deixando o céu mais bonito, desenhando o cenário de um dia ensolarado.

Nessa noite você estava tão mais alto, e grande, tão maior do que eu, e aparecia no quarto da minha antiga casa para me ver. Mas olha que engraçado, você sempre que me visita aparece no quarto que eu tinha quando criança, quarto grande porque eu era muito pequena, móveis antigos, cortinas coloridas e brinquedos nas prateleiras, nunca no quarto em que eu dormia à época em que te conheci, cheio de livros, com uma persiana da mesma cor de nada da parede, móveis de mogno marrom. Talvez você goste de esmiuçar a menina que sempre viu em mim. Lembro que nesses sonhos sempre olho para a janela e ela parece ser tão maior do que é hoje, e me mostra um céu sempre escuro, mas tão bonito, assim, colorido e estrelado.

Então chega a hora de eu dormir em meu próprio sonho e você tem que ir embora, querendo ficar mais um pouco, dividindo esse meu espaço que eu nem lembrava mais que existia, que você nem sequer pediu permissão para entrar, pelo menos eu acho que não. Nessa noite você se escondeu debaixo das minhas cobertas, para que minha mãe não te visse ali e te mandasse embora, e nós ríamos dessa sua tentativa vã de ficar mais um tempo ao meu lado, perto de mim, talvez porque não fizesse ideia de quando poderia voltar ao quarto em que eu dormia quando era apenas uma menina.

Eu poderia dizer que as noites que passo ao seu lado nada mais são do que projeções de minha mente, que por motivos que nem sei se lembra de você de vez quando, sim, eu poderia dizer isso… se não tivesse a plena certeza de que mesmo sem te ver, continuo te encontrando sempre, mas somente em meus sonhos, você precisa esperar que eu adormeça para vir até mim. E assim vou vivendo, sem entender até hoje o porquê de só te encontrar quando durmo.

 06/11/2012

Cláudia Fonseca