Tatuagem deixa de ser marginalizada para virar produto de consumo crescente entre mulheres

Por Cláudia Fonseca

Os primeiros seguidores cristãos que temiam o poder pagão e se tatuavam clandestinamente para se reconhecerem, jamais poderiam imaginar o juízo de valor que seria atribuído 2000 mil anos depois aos desenhos marcados no corpo. Utilizada desde uma forma de distinção entre povos primitivos até a identificação de prisioneiros, o que há alguns anos era visto com preconceito sai da marginalidade e ganha as ruas, com suas mais variadas formas e tamanhos. E à medida que a massificação da tatuagem se intensifica, cresce o número de mulheres adeptas a arte delineada na própria pele.

Elas podem ser discretas com suas borboletas, estrelas e fadas. Ou mais ousadas, como grandes dragões, cobras ou flores que cubram boa parte do corpo. A maior procura das mulheres é evidenciada pelo tatuador Rodrigo Maia e confirmada nas ruas. Ele conta que o público feminino é responsável por 40% de sua clientela, e a tendência, acredita, é aumentar. “A maioria prefere figuras pequenas, mas cada vez mais elas querem desenhos maiores”, afirma.

Se há algum tempo tatuagem era apenas “coisa de macho”, o que se percebe atualmente é a invasão das mulheres nesse mercado. Além de desejarem figuras que as diferenciem, elas dão um banho nos fortões que sofrem com a agulha; são mais resistentes a dor. Essa declaração não foi dada apenas por Rodrigo. A jornalista aqui, que já fez quatro tatuagens e visitou um número considerável de estúdios, ouviu a mesma coisa de todos os tatuadores: as mulheres suportam bem mais.

“A maioria dos homens são fracos”, garante Rodrigo. Mas já com as mulheres, a situação muda de figura. “Uma vez, uma menina chegou a dormir enquanto eu tatuava as costas dela. Já com homem, isso seria quase impossível de acontecer”. O que diriam os rapazes que eram vistos com olhar torto pela sociedade há tempos atrás, se ouvissem uma declaração como essa? Provavelmente cairiam na gargalhada, já que segundo a socióloga Renata Feital, poucos eram os que marcavam o corpo. “Em geral, eram os presidiários que faziam a tatuagem dentro da prisão”, explica.

Mas e agora, como a tatuagem é percebida? Arte? Talvez não mais. Para Renata Feital, o que antes era marginalizado e com o tempo passou a ser uma forma de apontar pessoas alternativas que queriam ser diferentes e utilizar o próprio corpo como uma manifestação artística, hoje é um bem de consumo. “Todo mundo tem ou quer ter. Não é mais um objeto de diferenciação, é um objeto que iguala. Mesmo aqueles que querem ser diferentes, nada mais fazem do que se diferenciar no meio da igualdade. Uma menina de classe média acha que tatuagem é uma coisa bonita e escolhe o desenho, sem sequer atribuir à figura um sentido”, declara.

O que Renata afirma é confirmado pelo tatuador Rodrigo. Ele diz que muita gente vê um desenho bonito na TV e resolve fazer igual. Ou então chega ao estúdio sem saber o que quer e escolhe algum desenho dos books do estúdio, que ficam expostos na recepção. Segundo ele, esse é um dos motivos que leva à grande procura por cover up (nome que se dá quando uma tatuagem é coberta por outra). “Nome de namorado ou namorada é o pior de todos. Oitenta por cento volta aqui para fazer a cobertura”, garante. E quem pensa que são as meninas as mais românticas, está enganado. “A maior parte dessas coberturas eu faço nos homens, que querem retirar o nome de uma mulher”.

Por isso, a dermatologista Pitila Ramalhoto recomenda que a escolha da tatuagem seja bem pensada. Como nem todos querem cobrir os desenhos que se tornaram indesejados, acabam optando pela remoção a lazer, que apesar dos avanços, ainda apresenta seus contras. É um tratamento difícil, doloroso e deixa sequelas na pele, dando a impressão de uma queimadura. Ainda é mais complicado em pessoas morenas e negras ou que tenham tatuagens coloridas. “A pele nunca volta 100% ao normal. É necessária uma média de oito a dez sessões, com o espaçamento de uma semana a um mês cada, depende da cicatrização da pessoa”, explica.

Para evitar todo esse trabalho, Rodrigo aconselha que a tatuagem seja algo que tenha a ver com a filosofia de vida da pessoa, como fez Letícia Deloque. Sua primeira tatuagem foi uma bruxa no tornozelo. Ela diz gostar do estilo gótico e ser simpática ao esoterismo. O seu segundo desenho já chama mais atenção. Ela está fazendo uma fênix nas costas inteira. “Hoje é minha quarta sessão, nem tenho ideia de quantas faltam para terminar”.

A escolha da figura tem toda uma história. “Passei por uma situação muito difícil, fiquei mal durante um tempo, cheguei a ter minha saúde prejudicada. Essa tatuagem é a prova de que, por pior que esteja sua vida, você pode contornar a situação”, conta. Ela não foi a única cliente do Rodrigo que fez uma fênix por motivos semelhantes. “Teve um cara que sofreu um acidente e ficou muito mal, quase morreu. Quando saiu do hospital, me procurou para fazer a tatuagem”, lembra.

Diferente de Letícia, Luciana Guimarães não foi tão feliz na escolha de sua primeira tatuagem. “Vi uma aranha tatuada na mão de um cara e achei legal. Acabei desenhando cinco delas na lateral da minha cintura. Com o tempo, comecei a me sentir mal, porque as pessoas tinham uma má impressão. O problema não era a tatuagem, mas a sensação que o desenho causava. Decidi cobrir de vez quando fui ao consultório médico e, ao tirar a blusa, a ortopedista fez uma cara de nojo e falou: nossa, aranhas? Mas por que aranhas?”

Depois disso, ela resolveu radicalizar e tatuar um dragão nas costas e na parte da lateral da cintura, o que cobriu o antigo desenho. “O dragão representa renovação. Eu estava me sentindo deprimida por ser criticada, e essa figura significa força, mudanças”. De fato, mudou. Se antes Luciana chamava atenção por ter o que ela caracteriza como “animais peçonhentos” tatuados, agora, após enfrentar aproximadamente 15 sessões com aquele barulhinho de agulha que deixa qualquer um nervoso, ela é admirada pela coragem de ter feito uma tatuagem grande e bonita.

O problema dela poderia não ser o incômodo das críticas em si. Quem decide se tatuar precisa ter a consciência de que aquela figura vai ficar marcada no corpo a vida inteira. Quando se faz algo que realmente tenha algum significado importante, a impressão causada nos outros pode ser o de menos, apesar de o intuito da tatuagem, em geral, ser estético. “O significado das minhas tatuagens é para mim. Mas se eu desenhei no corpo, claro que eu quero que outras pessoas vejam”, confessa Letícia.

Ainda assim, mesmo com todo o discurso contemporâneo que vem se formando em relação ao fim da marginalização da tatuagem, ela teve o cuidado de fazer os desenhos em lugares que possam ser facilmente escondidos pelas suas roupas. “Ainda há certa resistência nos ambientes mais sociais, as pessoas encaram com preconceito. Acho que acabam te rotulando como alguém que não é confiável. No meu trabalho, eu não uso roupas que mostrem minhas tatuagens”, diz a assistente administrativa.

Já Luciana não se importa em mostrar sua nova arte para todo mundo. O único problema que tem agora é a alergia que desenvolveu em uma parte da pele, que foi pintada com tinta vermelha; ela pegou sol e ficou um pouco empolada. Dra. Pitila Ramalhoto explica que complicações como essa são comuns, e que em algumas pessoas, a tinta, principalmente a vermelha, pode causar algum tipo de reação que varia desde uma alergia alimentar até a fotossensibilidade. “Mas isso muda de acordo com cada organismo”. O próprio tatuador Rodrigo revela que depois de fazer uma tatuagem com tinta vermelha, passou a ter rejeição a camarão. “Tenho que tomar antialérgico antes de comer”.

Além disso, são necessários alguns cuidados especiais antes e depois de fazer a tatuagem. “Não pode beber antes, o álcool ocasiona sangramento maior. Também não recomendo para quem faz uso de anabolizante. Depois de tatuar, é preciso ficar 15 dias sem pegar sol e nunca deixar de usar protetor solar quando estiver na praia ou na piscina, para que o desenho não fique com a aparência de desbotado. Também é importante fazer uma dieta nas duas primeiras semanas, evitando carne de porco, frutos do mar e alimentos gordurosos como coco, amendoim e chocolate. A utilização de uma pomada cicatrizante também é importante na primeira semana”, atenta Rodrigo.

Com tantos cuidados necessários, é bom pensar bem antes de tatuar. E o mais importante, segundo Dra. Pitila Ramalhoto: “A pessoa tem que procurar um profissional apto para isso, que tenha pleno conhecimento das reações que podem ocorrer”. A questão não é só essa. Às vezes, o trabalho do profissional pode deixar o cliente frustrado, ao perceber que a arte final não ficou nem um pouco parecida com o que ele queria. Estúdios de tatuagem existem aos montes, mas bons tatuadores, nem tantos.

Rodrigo, que já ganhou o 1º lugar na Convenção Internacional de Recife com a Melhor Tatuagem Estilo Realismo, entre outros prêmios, conta que 99% de seus clientes o procuraram por indicação de outras pessoas. Tatuagem não é brincadeira; dói, tem que ser cuidada, dura a vida toda e não deve ser feita por qualquer pessoa. Ainda assim, com todas essas complicações, por que o número de tatuados continua a crescer? 

Apesar de a socióloga Renata Feital afirmar que a tatuagem nada mais é do que uma diferenciação no meio da igualdade, para Luciana Guimarães a figura gravada no corpo dá a impressão de uma personalidade mais forte. “A dor é o de menos quando a gente começa a perceber o resultado de um trabalho bonito e bem feito”, afirma. Letícia Deloque, apesar de acreditar que o preconceito ainda existe, revela um pensamento parecido.

“A autoestima vai lá em cima. As pessoas elogiam, dizem que é legal, que querem uma também, mas têm medo. Ficam admiradas. É uma loucura, vicia. Você sofre, diz que não vai fazer nunca mais, mas quando vê o trabalho pronto, já começa a pensar em outra”. Para quem ainda ficou em dúvida por causa da dor, basta seguir o conselho de Rodrigo, que pode soar como sarcástico para muitos tatuados. “As pessoas ouvem o barulhinho da agulha e ficam logo nervosas. Mas é mais psicológico, nem dói isso tudo”. Pelo menos, para as mulheres, parece que nem tanto.

As mais doces recordações são as de minha infância. Queria poder ainda ser criança, para só chorar de um pé machucado, só lamentar não ter comido mais um biscoito, só temer que minha mãe leia meu diário, só me arrepender de não ter brincado um pouco mais com a boneca que quebrou. Então, quando cresci, tentei manter o coração infantil. Mas as pessoas ao meu redor cresceram também, e junto com elas sua forma de pensar. E mesmo sem querer, tive que aprender a ser grande… as circunstâncias me fizeram assim; uma menina grande que ainda brinca de pique-esconde.  

Por Cláudia Fonseca

Crianças não brincam mais. Crianças não brincam mais no balanço. Brinquedos vazios.

Cláudia Fonseca

Enchi o jarro de água e pinguei doses e mais doses de diferentes aromas. Misturei tantos doces e frutas e flores, que nesse misto de essências nem sabia mais o que respirar. Decidi deixar o jarro quieto em um canto, na esperança de um dia descobrir de qual delas eu gostava mais; esqueci numa estante qualquer. Fiquei perdida, quando em uma manhã fria me dei conta de que a água havia evaporado. Foi aos poucos vagar pelo espaço, sem que eu sequer percebesse. E o jarro ficou vazio. Nenhum cheiro sobrou. Exceto um odor vago, a sensação de passado, do nada que restou. Nada, além da ausência em cada respiração.

 Cláudia Fonseca

Não consegui saciar minha vontade de pão. E o dia passou, o pão ficou dormido. Outros dias se passaram e o pão endureceu. Saí para comprar outros pães. Mas nenhum deles tinha o mesmo sabor daquele que tão mal experimentei. E sinto muita falta da sensação que eu tinha, quando do pão eu comia. Um instigar de apetite que nunca termina. É o pão que me sustenta, alimenta, equilibra. O pão despertou uma fome que eu sequer sabia que tinha. Mas o tempo andou, o pão está dormido. O pão endureceu; mas a fome não passou. Ao menos o pão tivesse acabado… não ficaria a sensação de amor mal terminado.

 Cláudia Fonseca

 

Amassa pequenos recortes e esconde no fundo da gaveta vazia, como se nunca tivessem existido; guarda segredos do tempo. Recordações mortas. Horas antigas. Rabiscos desencontrados que se cortam com o frágil contato das afinadas bordas do papel… e sangra tinta azul. Que pinga. Pinga na imensidão do branco, escorre pelo mar cor de leite. Ganha mísero tom, ensaio de uma forma qualquer. Mas continuam todos escondidos, os recortes, no fundo da gaveta vazia. 

Cláudia Fonseca

Quando eu era criança, não tinha coragem de escrever nos meus papéis de carta. Não preenchia suas perfumadas folhas com estúpidas letras, que tanto de mim revelavam, só para manter aqueles pequenos recortes intocados. Tão ocos, opacos, eram meus papéis; apenas objetos de contemplação. E quando cresci, aquelas lindas mas medíocres recordações vazias nada mais me diziam, nada mais representavam. As linhas não rabiscadas se foram aos poucos, amassadas, jogadas fora… perderam-se no tempo e em minha memória.

Cláudia Fonseca

 Informação: cada um luta com as armas que pode.

Cláudia Fonseca

Todos aqueles que meu caminho cruzaram, todos os lugares que em algum momento vivi, nada mais são do que sensações, recordações que deles mantenho em mim…

 Cláudia Fonseca

“Os fatos passados obedecem à gente. (…) Então, onde é que está a verdadeira lâmpada de Deus, a lisa e real verdade?”  Guimarães Rosa – Grande Sertão: Veredas

 Tão rápido passa, que às vezes nada além fica, do que borradas recordações… 

Cláudia Fonseca

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